E se todos ficássemos cegos?
O mundo seria aterrorizante. E é isso que descreve o livro “Ensaio sobre a cegueira”, do prêmio Nobel José Saramago, escritor português genial. Fico me perguntando, de onde será que veio essa idéia maluca de escrever sobre uma cidade inteira cega? Sei lá, acho que das profundezas mais profundas da mente de Saramago.
Bom, o livro descreve os perrengues pelos quais passa uma cidade inteira que fica, repentinamente, cega. Há apenas uma mulher que consegue escapar da “maldição da cegueira branca”. Esta mulher ajuda um grupo de seis pessoas, é quase como uma babá desse grupo, que descobre que ele enxerga bem no final do livro.
O governo, ao perceber o problema, resolve isolar os cegos e os possíveis infectados em um antigo manicômio. Lá dentro, eles são responsáveis por eles mesmos, o exército apenas deixa a comida em caixotes três vezes ao dia. Não há água, só algumas camas divididas por alas, após alguns dias de confinamento, eu já fiquei imaginando o fedor de urina, fezes e suor. Sim, o ser humano faz coisas muito fedidas. E, sim, como estão todos cegos, as pessoas não se importam aonde fazem xixi ou defecam, afinal, elas não conseguem encontrar a latrina. E, sim de novo, ninguém toma banho. E, sim mais uma vez, pessoas começam a morrer (ou serem mortas!) e os próprios companheiros cegos é que devem enterrá-las.
O governo acha que isolando os cegos, a “maldição da cegueira branca” não irá se alastrar. Estão redondamente enganados. À medida que vão chegando mais cegos neste manicômio, a situação vai se tornando insustentável, até que um grupo resolve virar líder e tomar conta da comida, pedindo algum tipo de pagamento em troca. Solte a sua imaginação para descobrir que pagamento é esse!
Acontecem as piores coisas possíveis durante este tempo de confinamento, mas não é o fim. Quando eles conseguem escapar do manicômio, chegam até as ruas e percebem que a coisa está, literalmente, bem feia. As pessoas brigam por comida, há sujeiras e excrementos de todos os tipos na rua, não há água. Enfim, é o caos.
Tentem imaginar o fedor que se alastra ao meio-dia quando o sol está a pino. Urgh! Até me embrulha o estômago. E a única mulher que não cegou é a única que enxerga todo esse caos e tem que ter um estômago e nervos de aço para conseguir levar em frente. Ela sempre repete, durante o livro, que a verdadeira amaldiçoada é ela, que consegue enxergar tudo isso enquanto todos não vêem.
Saramago é “o” cara. Ele não usa nomes próprios em seus livros. Nem para cidades, nem para pessoas. Eles são chamados de “a mulher do médico”, “o primeiro cego”, “a rapariga dos óculos escuros”, “o rapazinho estrábico”… genial, não?
“Ensaio sobre a cegueira” realmente me tocou fundo. Tenho toda a história e personagens criados na minha mente insana. Às vezes, quando ando pelas ruas, fico pensando e se, de repente, todos ficássemos cegos? Como seria? O caos? Seria como o livro? A situação limite que o livro retrata faz as pessoas serem elas mesmas mais do que nunca. Acho que é assim na vida real.
“Blindness” é a adaptação de “Ensaio sobre a cegueira” para as telonas. O brasileiríssimo Fernando Meirelles é o diretor. Eles já filmaram no Canadá, Brasil e nos EUA (e em mais alguns países que não me recordo). O detalhe é que a história se passa em uma única cidade. Andei fuçando e pesquisando sobre o elenco escolhido para interpretar os personagens principais do livro, já me decepcionei. Queria saber da onde tiraram Juliane Moore para ser a mulher do médico e que o médico não é gordo??? Parei!

Cena de “Blindness”
Irei assistir “Blindness” com uma série de pré-conceitos. Um livro é sempre melhor que um filme, a minha imaginação não tem limites, já as possibilidades de um cinema são limitadas sim, oras bolas!
Bárbara, sua análise do filme foi tão angustiante quanto o livro, com todos os destaques para as cenas fétidas e escatológicas. Quem gosta destes ingredientes (e há quem os goste pela natureza da essência sensacionalista humana), pelo seu texto vai correndo até a livraria ou biblioteca mais próxima adquirir seu exemplar. Parabéns! Gostei demais do livro –foi um dos únicos que me despertou a atenção e me estimulou a lê-lo rapidamente– e penso semelhante com relação às adaptações. O filme nunca vai chegar aos pés do livro, mas, convenhamos, direção de Fernando Meirelles deve dar o que falar. Aguardemos a estréia, “oras bolas”!